O PRESENTE DO ESCORPIÃO

 



Simone Tebet almeja o Ministério do Desenvolvimento Social, casa do Bolsa Família, programa estrutural do governo Lula. Há murmúrios que para Tebet é o MDS ou nada. Ou seja, é mais um ônus do Centrão que Lula terá que negociar como barganha política entre os programas de assistência social e o agronegócio. Afinal, Tebet é a ponte entre uma direita agro e “civilizada”  e o atual governo. Guilherme Boulos disse em uma entrevista recente que buscará puxar o PT mais para a esquerda e Simone puxará certamente para a direita. Além de Simone, Arthur Lira também prepara sua cota de chantagem: o “consórcio dos deputados”. Os 150 votos de deputados para a aprovação da PEC da Transição em troca do Ministério da Saúde. Ou seja, já começou as duras batalhas pela soberania do governo. Por mais que tenha uma preocupação social e educacional latente, será que os projetos de Tebet são desenvolvimentistas ou apenas neoliberais? Destoantes, portanto, do governo petista. A precarização da educação nos quatro anos de governo Bolsonaro transformou a educação em migalhas. Ou seja, falta dinheiro até para as merendas escolares. Quando não a militarização de escolas públicas como se deu no Paraná, no governo Ratinho Jr. O aumento do ensino online e o corte de verbas das universidades federais. Os alunos saem da escola ainda analfabetos e desprovidos de pensamento crítico. Mão de obra precária para o mercado cada vez mais explorador. Antes do MDS, Tebet mostrou interesse pelo Ministério da Educação, porém como seria muito disputado preferiu abdicar sem muita resistência. Ela preferiu arriscar todas as suas cartas no MDS. Aqui cabe para Lula ligar para o seu conselheiro diplomático, Celso Amorim, e descobrir a melhor maneira de dizer “não” para Tebet. Se o governo Lula quiser autonomia política nesse terceiro mandato precisará ter os principais ministérios sob a sua batuta. Mas, o caminho não será fácil. Afinal de contas, Tebet foi uma aliada no segundo turno para aproximar Lula dos empresários do agronegócio e da classe média dita “civilizada”. Porém, Tebet é uma candidata neoliberal, sua visão social passa pelo aval do mercado. Talvez, o que falte para ela seja uma experiência maior no campo social. E não apenas na administração das fazendas que possui. Ideologicamente é perigoso para os rumos do governo Lula ter Tebet na pasta mais delicada do governo. É a pasta responsável por colocar a população do mapa da fome numa perspectiva social digna e dentro do mercado de trabalho. É a pasta petista por excelência. E precisa ser gerida por alguém tão comprometido com essa causa como é a indicação de Haddad para a Economia e Flávio Dino para a Defesa e Segurança Pública. O MDS precisará de alguém com esses mesmos pesos. É uma pasta fundamental. E talvez Simone Tebet não esteja preparada ainda. Talvez ela não seja a escolha correta do momento. Ela precisa passar pela experiência em campo do serviço social. Lidar com pobres e com a pobreza diretamente. Quem tem baixa tolerância à miséria não deve assumir essa pasta. Agora, o que fazer com a sua ajuda política? Poderá se transformar em uma longa relação de tempo. Primeiro, se o partido de Simone, o MDB, que deve assumir pelo menos um dos ministérios, ocupará essa vaga com Simone ou continuará empurrando-a para indicação pessoal de Lula . O caminho é então preparar Simone e aproximá-la mais das convicções do PT e da base. É fundamental que ela dialogue com a base petista, com o povo diretamente. Simone precisará se aproximar mais do povo, e, talvez no futuro, seja uma candidata mais consistente para concorrer à presidência. E não venha morrer na praia de ansiedades como Ciro Gomes. Manter ela próxima ao governo para aprender, aliada a outras figuras do partido, como Marina Silva, com quem possui afinidade. Percorrendo o país e percebendo as realidades conflitantes e carentes espalhadas pelo gigantesco território nacional. O que essa relação requer é um longo diálogo  e convívio. Se o que Simone quer é atuar no desenvolvimento social, ela precisará se lançar de corpo e alma nessa empreitada assim como se lançou na campanha de Lula.


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