CARTA ABERTA A BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ


A minha formação como sujeito tem uma profunda relação com a Biblioteca Pública do Paraná. Desde os 15 anos, período que passei internado por causa de uma cirurgia grave de apêndice, que me levou ao coma e alguns meses de internamento. E me fez perder um ano letivo inteiro. Essa cirurgia me fez desistir do colégio, passei a não mais acompanhar as aulas e me ocupar de outras atividades que me tiravam o foco para os exames e entrega de trabalhos. O que me acarretou dois anos de repetência, ficando para trás enquanto meus amigos avançavam. 

Meus pais não tiveram a oportunidade de estudar. Minha mãe por ser mulher e meu avô não a deixar. Meu pai teve que trabalhar desde cedo para colocar comida em casa e cuidar da mãe doente. Jamais viram no livro algum acesso para uma vida digna. Portanto, ler livros, que não fosse a Bíblia, não era um hábito em casa. Porém, o que me salvou foi  fatalmente a leitura, foi frequentar a Biblioteca Pública do Paraná. A fala de um professor de língua portuguesa que sempre defendeu a leitura como meio de conscientização de classes ficou gravada na minha mente.  

Quando adentrei pela primeira vez às portas da Biblioteca, do seu edifício no centro da cidade, à procura de um livro  que, para a minha felicidade, tinha em seu acervo, nunca mais a abandonei. Foi uma relação de acolhimento e amor recíproco. Lembro da alegria de fazer a carteirinha de usuário, e poder escolher o livro que quisesse daquele vasto arsenal de “visões de mundo”. Era só sentar em uma das cadeiras e ler o livro escolhido, acompanhado de outros leitores tão mergulhados quanto eu em suas leituras. Realmente, é difícil encontrar um marco tão importante como aquele em minha vida. A Biblioteca Pública do Paraná salvou a minha juventude, os livros me tornaram um pensador crítico, um inconformado e alguém com opiniões próprias que devem ser respeitadas. 

A Biblioteca passou a ser a minha referência no centro de Curitiba, é para onde eu ia quando perdia algum compromisso ou chegava muito cedo para alguma atividade. Era onde eu me refugiava, às vezes apenas para usar o banheiro ou para sentar numa poltrona e pensar na vida. Para folhear um jornal, para ler um gibi. Para jogar xadrez com os amigos do colégio. 

Apesar de vir a me formar em Teatro, o edifício mais importante para mim em Curitiba não era o Teatro Guaíra e sim a Biblioteca Pública do Paraná. Foi ali que li peças teatrais antes mesmo de realizar uma, foi onde a literatura se fundiu com a atuação em minha formação. Lembro de terminar um namoro e ir correndo até a Biblioteca para me consolar. Ficar até a hora do encerramento das atividades e voltar para casa mais aliviado, sabendo que a vida assim como um bom romance era cheia de conflitos e rupturas. 

A Biblioteca passou daquele momento em diante a fazer parte da construção da minha vida. Era onde eu me sentia seguro para pensar e conhecer os pensamentos de outras pessoas, escritores, poetas, músicos, artistas plásticos de todas as épocas. É impossível contar a quantidade de livros que nesses 16 anos, eu retirei das estantes da Biblioteca para ler, folhear, carregar nas mãos, emprestar. O escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu que “se o paraíso existisse seria uma espécie de biblioteca”. A Biblioteca Pública ainda é o meu paraíso, ou o mais próximo que se pode chegar dele. 

A relação com uma biblioteca é a ampliação do seu universo, você se torna um sujeito mais tolerante, mais consciente para com o outro. Você passa a entender melhor a sua cidade, o seu país, os outros países, os outros povos. Ler é uma espécie de solidão preenchida por várias pessoas, ideias, paisagens. 

A Biblioteca, então, passou a ser literalmente o meu segundo lar. Um jovem que já havia reprovado dois anos no ensino médio e que já não via mais sentido em continuar estudando, deparar-me com a leitura e com a Biblioteca Pública foi, sem exageros, a minha salvação. Deu-me ferramentas para ressignificar a minha existência. Desde aquele dia nunca mais deixei de frequentar a Biblioteca, ela passou a ser para mim um abrigo, fugia de encontros no shopping com amigos para ir a Biblioteca. 

Lembro que na época era muito comum os cursos de informática, era uma maneira que os jovens encontravam de buscar alguma formação para o mercado de trabalho. O curso que eu estudava ficava na Rua João Negrão, lembro de nos fins das aulas que terminaram às 18h, eu ir correndo para a Biblioteca, que fechava às 20h. Passei horas da minha vida caminhando pelos corredores, repletos de livros. Todo o leitor sabe o quanto é importante o ambiente de uma biblioteca, é um espaço onde a gente pode pensar em coletivo. É onde a gente compartilha de um silêncio preenchido pelas ideias, a Biblioteca Pública do Paraná ajudou a formar o meu caráter. Não à toa que quando entrei na Universidade para cursar Teatro, todos os livros que li para a prova vieram da Biblioteca. Fiquei muito feliz quando fui chamado para ser estagiário e depois contratado como terceirizado, onde trabalho até hoje. Realizei o meu sonho de trabalhar em um lugar que acredito como fundamental, não só para a formação, mas para a vida de alguém. Quando defendo a Biblioteca é como se defendesse minha própria casa. Diminuir o poder de ação de uma instituição tão importante quanto a Biblioteca é assassinar o futuro da sua cidade, do seu Estado, do seu País. É um crime inafiançável para com as novas gerações de cidadãos de Curitiba e do Paraná. Destruir a cultura de uma cidade, de um  Estado é aniquilar o seu futuro. O desmanche da Biblioteca visa acabar com o futuro de muitos jovens que usufruem do seu espaço como um segundo lar. As bibliotecas formam os pensadores de uma nação e uma nação sem os seus pensadores está fadada à barbárie .

Att,

Anderson Caetano Rosa


Comentários